Uma visita a alguns dos mais tocantes filmes e suas diversas formas de abordar a melhor fase de nossas vidas.

Dos diversos gêneros do cinema, o que mais me cativa é o coming-of-age. Traduzido livremente para “a vinda da idade”, os filmes tratam de uma das fases mais maravilhosas, assustadoras e empolgantes etapas da vida: o processo de amadurecimento da vida jovem para a vida adulta. Desde sempre, filmes assim são pensados, feitos e cativam tantos ao redor do mundo: de preto e brancos como The 400 Blows (1959) e A Última Sessão de Cinema (1971), passando pelos queridinhos dos anos 80, Clube dos Cinco (1985) e Curtindo a Vida Adoidado (1986), chegando até o mexicano E Sua Mãe Também (2001) e a clássica comédia Superbad (2007), toda época é uma época boa para os coming-of-age. Essa última década, porém, tem se mostrado propícia ao florescimento de histórias cativantes e, mais importante, que ganham cada vez mais a atenção de críticos e amantes da sétima arte. Realmente, é uma sorte estar vivo agora.

A mágica dos filmes que entram nessa categoria se dá pelas diversas formas com que a passagem da vida é dada nas tramas. A simplicidade é a chave para tais histórias, assim como o sentimento de se ver reconhecido na tela e se conectar com os personagens de uma forma pessoal e comovente. Quem nunca teve lá seus 14 e 17 anos e encarou dúvidas que, na época, pareciam tão devastadoras e cruéis? Quem nunca vivenciou a dor e a delícia de se ver crescido e amadurecido, quem nunca experimentou o alívio de ver uma fase passar e o esperançoso medo de um novo momento chegando? Quem ainda não chegou lá, vai chegar. E se prepara, coisas maravilhosas e (um pouco) assustadoras estão por vir.

E não só se maravilhando com os longas, as histórias por trás da execução dos filmes acaba sendo tão interessante e merece tanto destaque quanto os resultados que obtém. Muitos destes trabalhos são independentes — ou seja, produzidos fora de grandes estúdios e com baixo orçamento — e as lutas para arrecadar dinheiro (e conseguí-lo de volta) e lançar o filme são muitas e árduas. Tudo isso faz desse tipo de filme uma aventura simples, mas avassaladora, com a qual podemos nos conectar e levar conosco para o resto da vida.

Abrindo o ano de 2010 com o estranho e cômico Submarine, famoso pela trilha composta por Alex Turner (vocalista do Arctic Monkeys) e considerado um clássico da categoria até hoje, segue a história de um jovem de 15 anos que tenta trazer mudanças para sua família e vida amorosa. Em 2012, veio o tão esperado As Vantagens de Ser Invisível, com Emma Watson (Harry Potter) e Logan Lerman (Percy Jackson), e suas cenas e frases — como a cena do túnel e o “Nós somos infinitos.” — marcam muitos até hoje. Em 2013, um dos melhores e mais subestimados filmes veio ao ar: O Verão da Minha Vida (vale a pena conferir!), que, em minha opinião, continua sendo um dos mais bonitos tesouros do gênero. Um ano depois, veio o aguardado Boyhood, conhecido por ter sido feito ao longo de 12 anos com os mesmos atores e que captura a vida do garoto até sua chegada à faculdade.

Amadurecimento e autodescoberta

Alguns, mais recentes, podem até se unir para criar uma mágica linha do tempo. Ambos Eighth Grade (2018) e Lady Bird – A Hora de Voar (2017), o primeiro acompanhando a jornada da quieta e tímida Kayla, de 13 anos, prestes a entrar no temido ensino médio e o segundo, com Christine (que se auto intitula “Lady Bird”), que por sua vez está prestes a terminar a escola e embarcar no desconhecido mundo da faculdade. Ambos os filmes ganharam críticas excelentes e prêmios — Eighth Grade ganhou dois Gotham Awards na última segunda e Lady Bird foi indicado à 5 Oscars — e mostram duas partes diferentes de crescer que se juntam numa jornada singular. Kayla e Christine podem não ser a mesma pessoa, mas definitivamente há várias delas passando por isso agora… e se ver representado nas telonas é reconfortante e energizante.

E não só sobre amadurecer na vida escolar esses filmes falam. Em 2017, concorrendo lado a lado com Lady Bird nas premiações, surgiu Call Me By Your Name, com uma viagem à Itália e às profundezas da orientação sexual de um garoto de 17 anos que levou um Oscar para casa. De volta à 2012, Pariah aborda a sexualidade de uma jovem negra e Moonlight, ganhador do Oscar de Melhor Filme de 2017, juntou-se à ele e, além de tudo, mostrou as consequências de se crescer e amadurecer em tais condições. Esse ano, os escolhidos são Love, Simon, The Miseducation of Cameron Post e Boy Erased, cada qual falando sobre as dificuldades entre aceitação, religião e apoio da família e de si próprio.

E eu poderia continuar e continuar… mas vou deixar o resto da experiência mágica com vocês. Espero que o encantamento desses filmes intimistas e emocionantes conquiste você assim como conquistou à mim há tanto tempo. Afinal, não há nada melhor do que o sentimento de liberdade e alívio ao ver que você não está sozinho em sua jornada e de se sentir entendido e acolhido por uma história sobre crescer, amadurecer e se fortalecer… Me despeço com outras (sim, mais!) indicações: Leave No Trace e Lean on Pete, ambos tratando das jornadas que têm de trilhar para ser livre e seguir seu próprio caminho. No mais… que venham mais filmes maravilhosos ano que vem e sempre. Vida longa aos coming-of-age!

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