Distante e cruel, o filme desperta incômodos, exasperações e dúvidas inquietantes.

A religião sempre se fez presente na História e é intrínseca à nossa concepção de mundo. Desde os tempos feudais, quando a Igreja era a maior instituição do regime, até os dias atuais, onde sua força se faz mais tímida mas não menos avassaladora. Seja entre fiéis fervorosos ou entre céticos e ateus, Deus, de certa forma, sempre é pauta de assuntos e sua relação (caso você escolha acreditar) com os homens, a criação, as maravilhas e catástrofes do globo se faz das mais diversas formas. Na nova trama de Paul Schrader — roteirista do clássico Taxi Driver (1976) —, um interessante e inovador questionamento é trazido à tona: a conexão entre Religião e Natureza.

“Porque vivemos por fé, e não pelo que vemos.” — 2 Coríntios 5:7

Apesar de parecer um tema já explorado e batido, tal pergunta agora é trazida de modo direto e incisivo ao mundo do cinema. Além disso, o longa abrange os mais diversos temas e suas nuances como solidão, destruição, desesperança e fé. A história centra-se jornada do reverendo Ernst Toller (Ethan Hawke), responsável por uma pequena Igreja de nome First Reformed (“A Primeira Reformada”) e que vive às custas de um templo muito maior e mais rentável chamado Abundant Life (“Vida Abundante”). Sua vida conturbada é remexida e entra em colapso após um encontro com um ativista do meio ambiente e sua esposa grávida, e diversos dilemas são colocados nos holofotes de um modo muito provocativo.

O filme, que foi indicado em diversas categorias como Melhor Filme, Melhor Ator, Direção e Roteiro em premiações independentes como o Gotham e o Spirit Awards, usa de cenas longas e estáticas e pouca música para criar uma ambientação desconfortável e fria. O resultado é louvável: Schrader consegue, com sucesso, trazer um estudo das angústias de viver num mundo à beira de um colapso e de sentir vazio inexorável ao ser humano.

Cena do filme “First Reformed” (No Coração da Escuridão), 2018.

Quando o reverendo entra em contato com questões tão perturbadores e desconfortantes, sua mente e seus sentimentos — já se equilibrado em uma corda bamba prestes a romper — fogem de seu controle. Toller era um militar que, após uma tragédia em sua vida, vira-se para a Igreja e torna-se responsável por esta. Não há dúvidas de que ele é um homem de fé; mas em sua mente e em seu coração habitam impasses e sentimentos tão contrários que, ao tentar balanceá-los, ele só se torna um homem apático, afastado e entorpecido.

Um padre, reverendo ou pastor — um homem religioso que está à frente de uma instituição — sempre é visto pela comunidade como alguém estável, centrado, pacífico e esclarecedor. Toller possui essas características, mas vai mais além: ele é humano, com falhas e questões tão amargurantes quanto as nossas. Ao tomar as dores de um de seus confidentes para si, encarna um espírito cruzadista tão avassalador que engolfa tudo ao seu redor.

Ele passa, então, a enxergar as entrelinhas entre as hipocrisias e os paradoxos de uma vida cristã, uma visão da Igreja como uma empresa não diferente de todas as outras, o homem como um ser tão em extinção quanto os que ele extingue em nome do lucro e do progresso. Seu vínculo com tudo ao redor — paróquia, colegas, o pequeno número de fiéis — atinge um nível deformado e exaltado, e fica cada vez mais impossível não se perguntar o quanto somos responsáveis pela devastação do mundo que habitamos.

“Todos os animais da terra tre­merão de medo diante de vocês: os animais sel­vagens, as aves do céu, as criaturas que se mo­vem rente ao chão e os peixes do mar; eles estão entregues em suas mãos. Tudo o que vive e se move servirá de alimento para vocês. Assim como dei a vocês os vegetais, agora dou todas as coisas.” — Gênesis 9:2-3

Afinal, o quão Deus é responsável pela Terra? O catolicismo dá à Ele o título de criador de tudo e todas as coisas. Com a aceleração do mundo capitalista e da busca por superioridade e influência, justifica-se inevitável — para os grandes conglomerados industriais e os seus magnatas invencíveis — a desolação de fauna e flora de modo irrefreado. Aquecimento global, efeito estufa, catástrofes e colapsos ambientais constantes…

O quão somos atribuídos a isso? O filme joga uma luz em uma ferida que não sabíamos que tínhamos: a admissão de que Deus criou a natureza mas nós o separamos dela. A destruição não é vista como um pecado. Deus não está mais no ar, nas árvores, nos pássaros; Ele agora vive apenas em nossos corações e isso é (ou parece ser) o suficiente.

Apesar do final conter um certo anticlímax e algumas cenas e acontecimentos parecerem um pouco forçados, o ímpeto da história não perde sua destreza. First Reformed vai além do estudo de uma fé abalada e a agonia desoladora que habita cada um de nós e atinge um patamar ousado que pode e deve mudar a forma como muitos próximos filmes serão feitos. E quanto à Natureza, esta, como Jesus, continuará a renascer. Mas e nós? Por quanto tempo iremos permanecer aqui? Até quando Deus permitirá a desolação de sua (e nossa) casa pelas mãos de Sua própria criação?

Confira o trailer.

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