Um anime que mexe com a sua forma de pensar sobre as bombas que atingiram as cidades japonesas.

Agosto de 1945. Nesse período, já se sabia que o Japão registrou grandes derrotas durante a Segunda Guerra Mundial. Enquanto que seus aliados europeus se renderam após as mortes de ditadores como Benito Mussolini e Adolf Hitler, os confrontos entre americanos e japoneses continuavam em regiões da Ásia e do Pacífico. Em uma tentativa de forçar o país insular a se render, no dia 6 de agosto daquele mesmo ano, o boeing B-29 lançou uma bomba atômica em Hiroshima. A Little Boy, como ficou conhecida, explodiu a cerca de 500m do chão, matando milhões de pessoas instantaneamente. A violência da explosão foi tão grande que quase tudo se desintegrou.

Os japoneses já tinham recebido o aviso de que seria bombardeado, mais uma vez, caso não levantassem bandeira branca. Porém, seus líderes o ignoraram por não acreditarem na possibilidade. Três dias após aquele incidente, Nagasaki foi vítima de outro: a bomba Fat Man fez um estrago ainda maior que o anterior. No entanto, o Japão só declarou rendição em 15 de agosto, quando deu por fim a Segunda Guerra. Nos primeiros meses pós-explosões, as duas cidades sofreram profundos efeitos devido à radiação, o que culminou na morte de um pouco mais de 140 mil pessoas até o final daquele ano; apenas prédios de pedra e concreto resistiram ao ataque.

É neste contexto que se passa o anime Gen: Pés Descalços, lançado em 1983 e dirigido por Mori Masaki. O longa adaptado da série de mangá “Hadashi no Gen” criada por Keiji Nakazawa, narra essa história de grandes conflitos envolvendo o Japão. Gen Nakaoka é o jovem protagonista que, aos 7 anos de idade, perde os irmãos e o pai devido ao ataque atômico. Um período de escassez de comida e boas condições de vida, mas que permanece a esperança por momentos melhores.

Imagine um garoto que nem alcançou a pré-adolescência ser obrigado a tomar as rédias de uma situação tão árdua que exigia dele uma maturidade ainda não alcançada. Mesmo antes, sua única alternativa foi passar por momentos alheios à sua faixa etária. Este é Gen, que após assistir a morte de metade da sua família no infortúnio que devastou sua vida, teve que seguir adiante juntamente com a mãe grávida em busca de sobrevivência. O nascimento da irmã em meio aquele caos, se faz literalmente entre a vida e a morte — o mais doloroso é o que ocorre depois.

Acompanhamos a história do rapaz que tem como plano de fundo a catástrofe mundial (ou seria o contrário?), por cerca de 123 minutos. O vemos vivenciar momentos que muitos de nós não saberíamos como lidar em sua total experimentação. Situações extremas que inculcam obrigatoriedade na busca por remanescência. Se há algo que Gen: Pés Descalços nos ensina, para além de tudo, é como resistir a um grande desgaste. Ainda que ficcional, assistir a perda da inocência de uma criança motivada por algo tão atroz é aflitivo e angustiante.

De acordo com a obra, corpos japoneses foram queimados a temperaturas que beiravam 4000° C, e, até hoje, os efeitos desse desastre atinge a população devido ao fato de que seus quase 193 mil sobreviventes transmitiram lesões às gerações futuras. Crianças, por exemplo, sofrem com diversos problemas genéticos consequentes da radiação que lhes foi exposta.

Se em 1945 os EUA conta que 85% de sua população aprovou o ataque por entender a decisão tomada pelo governo rooseveltiano daquele período, no contexto histórico, a obra nos mostra a versão japonesa da história. É uma emocionante caminhada carregada de dor e destruição, um anime que demonstra muito bem o horror causado pelo grande desastre a milhares de famílias.

O anime não é como os outros, pois não se trata apenas de um entretenimento. Nos traz reflexões importantes sobre o ataque atômico e suas consequências, bem como lições importantes sobre a vida, persistência e o aprendizado maior de todos: resiliência. Nos apresenta uma versão clara e fidedigna de uma história que não aprendemos em sua totalidade no período escolar. Não à toa que foi proibida, por um certo tempo, a sua transmissão nas televisões americanas devido o Acordo de Paz assinado pelo Japão.

Uma narrativa cruel que agoniza nosso ser, e nos faz odiar a ganância humana em busca por poder e controle. Um exercício sobre empatia. Uma obra inquietante e dolorosa, mas necessária para refletirmos sobre as nações que estamos nos tornando.

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