Na primeira vez em que Brie Larson entra para trás das câmeras, recebemos um trabalho colorido pincelado com belas estranhezas.

Este com certeza é o ano de Brie Larson. À frente da nova era do universo cinematográfico da Marvel como Carol Danvers, e prestes a ser um dos mais importantes pilares na batalha contra Thanos em Vingadores: Ultimato, não há quem ame o cinema, os super heróis ou o circuito de premiações (não podemos nos esquecer de sua vitória no Oscar há 3 anos) que não conheça seu nome. Para somar à lista, temos o lançamento de seu novo filme, Unicorn Store, aos circuitos mundiais; e que mesmo dividindo críticas, assenta sua nova jornada como, além de atriz renomada, diretora.

O filme Unicorn Store (Loja de Unicórnios) foi produzido em 2017, mas só conseguiu ser distribuído dois anos depois quando a Netflix tomou tal responsabilidade para si e jogou o longa no ar no começo de abril deste ano. Nesse meio tempo, Brie consolidou sua posição como uma das maiores atrizes de Hollywood e conquistou o mundo geek ao protagonizar a primeiríssima heroína solo (pois não podemos esquecer de Hope Pym, em Homem-Formiga e a Vespa!) em um filme da Marvel.

Brie não esconde seu carinho pelo trabalho e diz que mergulhar atrás das câmeras foi um presente. Em sua adaptação do roteiro inteiramente escrito por Samantha McIntyre, também em seu primeiro trabalho, acompanhamos a peculiar Kit, excêntrica, energética que quando não está coberta de tinta, esbanja seus chamativos e coloridos terninhos. Vivendo entre as dificuldades de ser adulta e sua luta por continuar vivendo de e para a arte, ela se encontra com um pitoresco vendedor de unicórnios representado pelo sempre icônico Samuel L. Jackson, e faz de tudo para conseguir o seu, já que ter esse animal “mítico” sempre foi o seu sonho de infância.

Kit é uma jovem adulta com ânimo infinito e uma constante aura de purpurina, que, mesmo depois de ser expulsa da faculdade de arte, ainda tenta fazer o ganha-pão com pinceladas desmedidas e cores das mais diversas. O mundo real, porém, vem provando a ela que talvez não seja tão fácil assim (como sempre o faz). Seus pais amáveis, mas, por vezes, distraídos dos reais sentimentos da filha, tentam de tudo para fazê-la ver que é hora de tomar uma decisão, de escolher um caminho — e que a arte talvez não seja a solução pros problemas que ela tenta ignorar.

Kit é uma clara rebelde que faz de tudo para não ceder às garras do sistema; É daquelas que crê nos ideias, não importa o que aconteça. Decidida e honesta, é por isso que quando diz que recebeu uma proposta de ganhar um unicórnio chamado Steve, você acredita piamente nela. Os outros que talvez não o façam.

Brie Larson e Samuel L. Jackson em cena de “Unicorn Store” (Loja de Unicórnios), disponível na Netflix.

Apesar de conter falhas, como um roteiro por oras perdido e uma história que dá voltas demais, isso não forma um grande problema. A trilha sonora foi feita pelo companheiro de longa data de Brie, Alex Greenwald, e, apesar de às vezes parecer deslocada, possui sua beleza. No mais, não há grandes ênfases na fotografia ou na direção, que se mantém estáveis e seguras dentro do que todos já conhecem. Fica claro que o objetivo é trabalhar com uma história que possui charme em simplicidade, e isso eles conseguem.

E por mais estranha que a história seja, é claro, desde o começo, que este é um filme de Brie, para Brie, que caiu em seu colo como um presente para trazer à vida essa parte de sua infância — visto que o filme abre com um compilado fofíssimo dela em seus primeiros anos e uma variedade de unicórnios espalhados pelas cenas — e nos fazer relembrar as belezas da nossa. E ela não se contém ao expor tamanho carinho e cuidado ao construir o caminho de Kit: o filme, com pouco mais de 1h30 de duração, anda por caminhos cuidadosos, e deixa para trás uma mensagem que emociona quem se deixa cativar.

O que mais vale nessa experiência é a inusitada lição que Brie e Samantha tentam nos entregar: o valor da infância. Todos nós sabemos que os primeiros anos nos formam e nunca nos deixam, é verdade; mas nunca antes vi uma visão que focasse na necessidade de deixar certas coisas para trás. Kit se esforça tanto para conseguir seu unicórnio que deixa para trás tudo o que precisa encarar: a realidade de precisar pagar as contas e ter um emprego fixo, a necessidade de extravasar a mistura de raiva e amor que sente por seus pais, a vontade de se conectar com as pessoas ao seu redor.

Ao olhar tanto para trás, o caminho da frente fica obscuro. Quando as memórias da infância, os antigos sonhos, os velhos brinquedos e os resquícios do que éramos não são mais lembranças que nos impulsionam, mas um lugar melhor que nos salvará de onde estamos agora, é melhor colocar os dois pés no chão — por mais duro que isso possa ser.

Para terminar, deixo aqui uma frase que me cativou bem mais do que eu imaginava e que tento levar comigo para onde quer que eu vá. A mãe de Kit, em uma cena entre mãe e filha, diz para a segunda que “a coisa mais adulta que você pode fazer é falhar nas coisas que gosta”. Crescer não é ter todas as respostas, crescer é aceitar seus fracassos e nunca deixar sua essência para trás. Não abandonem seus “Steve”, não se prendam tanto a ele que tudo que existe se torna seu passado, suas lembranças e sua nostalgia paralisante. O mais difícil de crescer é entender que, às vezes, nossos unicórnios precisam partir.

Com os ares sonhadores de Sonhando Acordado (2006) e um quê da carga dramática incrível de Temporário 12 (2013), Brie consegue ao dirigir e atuar construir uma história simples e cativante. Muitos sabem que esse é meu tipo preferido de filme, então abrir o ano desse jeito pode ser um sinal de boa sorte.

Unicorn Store está disponível na Netflix e logo, logo, Brie Larson volta às telonas como Capitã Marvel e prova mais uma vez que 2019 já é seu. E estaremos aqui para ver! Confira o trailer abaixo.

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